Lô Borges, Kiko Ferreira, Patrícia Ahmaral e Rodrigo Toffolo reverenciam um dos artistas mais influentes de todos os tempos
Por BRUNO MATEUS
09/10/20 - 07h03
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Foto: Ilustração Acir Galvão/O Tempo

Foto: Reprodução/Site Oficial‹›
Alucinante. Esse é o adjetivo usado por Lô Borges para falar sobre o impacto da música de John Lennon naquele garoto franzino de 12 anos que acabara de se mudar para o Centro de Belo Horizonte. Corria o ano de 1964. Lô vagava pela avenida Afonso Pena quando parou em frente ao Cine Acaiaca e viu quatro cabeludos em um cartaz cujo título anunciava “Os Reis do Iê, Iê, Iê”, filme sobre John, Paul, George e Ringo e o auge da histeria beatlemaníaca. “Entrei no cinema sozinho e comecei a ver a primeira sessão”, comenta o compositor.
O efeito ao ver os ainda garotos de Liverpool na tela foi tão imediato que Lô Borges ficou inerte na poltrona. Foram uma, duas, três, várias sessões ao longo do dia, até o apagar das luzes do cinema. Ali, diante da enorme tela, aconteceu o clique que fez o cantor se emocionar e que ajudou a definir os caminhos que ele tomaria em sua vida: “Da segunda sessão em diante, eu só olhava para o John Lennon. Achava a voz dele diferente das outras, como ele cantava… Fiquei encantado, fixado no John, nas coisas sarcásticas que ele dizia, ele cheirando uma garrafa de Coca-Cola. Pensei: ‘Esse cara é o meu predileto’. Eu amo o John Lennon, foi amor à primeira vista”.
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Este foi só o começo. Depois disso, tudo o que seu beatle predileto fez com a banda ou em carreira solo entrou na cabeça de Lô Borges como um vendaval. Influenciado pelo menino que nasceu na portuária Liverpool, o cantor e compositor mineiro também quis fazer música – e, pensando em John, ele compôs, já nos anos 70, a melodia de “Para Lennon e McCartney”. O resto é história.
Por ter tanta intimidade – e afinidade – com John, embora nunca tenham trocado meia-palavra, é que as frases saem desemboladas em uma conversa rápida por telefone com este repórter. Fica fácil falar sobre a paixão que sente por John Winston Ono Lennon.
“Ele é muito consistente nas músicas, no canto, nas letras. John tem uma personalidade fascinante, era rebelde, um cara absolutamente genial. Gosto de tudo nele: do posicionamento político, da defesa de causas pacifistas, da história com a Yoko”, comenta Lô Borges.
Se John Lennon não tivesse sido assassinado a tiros ao chegar ao Dakota, edifício onde morava, em Nova York, naquela noite fria de 8 de dezembro de 1980, ele completaria 80 anos nesta sexta-feira, 9 de outubro. Já são quatro décadas desde sua morte, mas ele continua presente no imaginário coletivo e sendo apresentado às novas gerações com muita força.
Influenciado pelo humor das rádionovelas britânicas dos anos 50, John era extremamente engraçado. Dono de uma língua mordaz e uma personalidade atormentada pelos traumas da infância, complexa, sensível, cheia de afeto e raiva na mesma medida, ele testou os próprios limites, despertou amor e ódio, fundou a banda mais importante de todos os tempos, mergulhou fundo nas drogas, na terapia primal, na meditação transcendental, nos protestos pela paz e, sobretudo, nas artes.
Aí entra a figura fundamental de Yoko Ono, sua mulher, que abre a cabeça de Lennon para a música experimental, o cinema alternativo e a arte contemporânea. Se Paul foi seu grande parceiro nos anos 60, Yoko ocupou esse lugar na década seguinte. O artista, o ativista, o pensador, o cronista: John Lennon, em todas suas facetas, continua relevante e atual.
“Ele soube exorcizar muito bem o universo individual e suas dores em obras-primas, como ‘Mother’, e soube também exorcizar as dores do tempo dele de maneira forte, contundente. Lennon não teve medo de ser coletivo e, ao mesmo, trabalhar pela individualidade. Isso é fundamental em um artista”, analisa o jornalista, poeta e crítico musical Kiko Ferreira.
A cantora e compositora belo-horizontina Patrícia Ahmaral sempre teve muita influência da música popular brasileira, mas, ainda criança, quando escutou “Imagine”, de 1971, foi arrebatada para sempre pela voz e pela atitude de John Lennon. A influência persiste, e, morando em São Paulo há um bom tempo, Patrícia formou a Quiridinhas da Rainha, banda só de mulheres que se reuniram para tocar Beatles.
Para homenagear o ídolo, o grupo vai postar uma interpretação de “Across the Universe” nas redes sociais, com participação de Ná Ozzetti. “Sempre que penso nele, penso na dor e na beleza. Junto com aquela voz e aquela música, ele tem uma carga bem forte de humanidade”, diz Patrícia.
Para o maestro da Orquestra Ouro Preto, Rodrigo Toffolo, John Lennon construiu uma das grandes obras da humanidade, pois se metamorfoseia ao longo das décadas e permanece sempre universal e atemporal, transcendendo regionalidades. “Esse movimento dele é muito mais que musical, é comportamental, embora a música por si só seja grandiosa”, ele ressalta.
É difícil saber como John Lennon estaria aos 80 anos e o que teria feito nas últimas quatro décadas. Talvez ele lançasse uma autobiografia, se metesse a fazer rap ou abrisse uma galeria de arte com a esposa. Ele poderia estar aí criticando Trump e Bolsonaro ou como costumava dizer a Yoko: “Quando tivermos 80, estaremos em cadeiras de balanço esperando pelos cartões-postais de Sean”.
CDs, livro e entrevistas marcam o aniversário
Os 80 anos de John Lennon foram – e ainda estão sendo – celebrados com várias ações, envolvendo lançamento de um box e outros conteúdos especiais nas redes sociais do artista (Instagram, Facebook, Twitter e YouTube). A rádio britânica BBC criou uma programação intitulada “John Lennon at 80”, em que Sean Ono Lennon entrevista seu meio-irmão Julian, Paul McCartney e Elton John.
Os links estão disponíveis nas redes de John Lennon e no site da BBC. Como parte das comemorações, foi lançado também um box com dois CDs (há também a opção de quatro LPs) apresentando 36 gravações (remixadas do zero para a nova coleção) das mais importantes músicas da carreira solo do compositor, pôster, adesivo e dois cartões-postais.
Um livro exclusivo de 124 páginas, contando, em entrevistas e imagens inéditas, a história de cada uma das 36 canções nas palavras de John, Yoko e daqueles que trabalharam ao lado deles é outra joia dessa caixa de preciosidades. Ela pode ser encomendada pelo site oficial do artista e leva o nome de “Gimme Some Truth”, música do álbum “Imagine” (1971) e título que norteia todas as ações em torno dos 80 anos de Lennon em suas redes sociais, como a venda de máscaras, camisas e bótons. E o edifício Empire State, em Nova York, exibiu uma luz azul, em seu topo, do pôr do sol de ontem às 2h de hoje para lembrar o artista, que adotou a cidade como seu lar na década de 70.
John Lennon também será homenageado pela "BH Beatle Live". Nesta sexta, às 20h, no encerramento do festival, Aggeu Marques e Banda, acompanhados pelo quarteto de cordas Fractal, interpretam sucessos do artista com os Beatles e em carreira solo. O show será exibido no canal do Cine Theatro Brasil Vallourec no YouTube.
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